Língua errada...
Encontrei no site "Estudantes" uma discusssão onde um aluno dizia que um seu professor havia falado que não existem erros de "língua falada" e buscava respostas para suas dúvidas. Esta foi a resposta que lhe enviei:
Meu caro Clóvis, entre o que seu professor falou e o que você entendeu há um grande vazio onde podemos nos perder.
Primeiro é preciso lembrar que sua graduação está sendo em Filosofia e não em Letras, de maneira que muito do que seu professor de Língua Portuguesa (deve ser, pelo assunto tratado) está tentando lhe dizer sofre com a falta de base em outras disciplinas. Introdução à Lingüística é o requisito mínimo para poder entender esse papo de ‘língua errada’. É provável que ele estivesse tentando dizer que ninguém comete erro ao falar, tanto que você pode entender muito bem uma pessoa falando português. Somente se o falante for portador de alguma deficiência mental é que ele poderá cometer erros, e aí vamos esclarecer o que seria um erro; “A bola joga mininu us”, “Mininu bola us joga”, “Joga us minino bola”... Esses seriam erros de português, a sintaxe estaria comprometida e assim o entendimento.
“Us mininu joga bola”, o problema com esse falante é que ele não tem intimidade com a norma padrão mas a sua gramática é bem lógica e econômica; o plural está marcado pelo artigo definido “us”, o verbo jogar e o substantivo mininu na sua gramática não precisam estar no plural por uma questão de economia (a língua é econômica). No inglês, por exemplo, a marca de plural fica só no substantivo; “The boys play soccer”, nem o artigo nem o verbo sofrem variação de número.
Quando o falante diz “us mininu” ele não está cometendo nenhum erro, se você prestar bem a atenção, verá que quase a totalidade dos falantes, incluindo aí seus professores de Língua Portuguesa, se expressam desta maneira.
Nós precisamos é começar a compreender a diferença entre Norma Padrão e Língua. A Norma , é uma tentativa de imobilizar a vida da língua, de congelá-la impedindo seu curso natural de variação e mudança. Infelizmente a maioria dos professores de português ainda teima em ensinar gramática pensando estar ensinando português, essa língua a gente sabe, nascemos em uma família que fala esse idioma todo o tempo e convivemos com pessoas que se expressam por meio dele. É interessante atentar para o fato de que se as línguas não mudassem, ainda estaríamos falando Latim; se não houvesse mudança na língua não falaríamos “você” ou até mesmo “cê”, ainda estaríamos falando “vossa mercê”. Ensinar português seria na verdade dar ao aluno conhecimentos e instrumentos para que ele tomasse conhecimento das diversas variantes da língua, compreendesse porquê as pessoas de grupos diferentes do dele falam de maneira diferente da que ele fala. Compreender que existe uma variação tida pela sociedade como padrão, conhecer e poder utilizar esse padrão na ocasião apropriada e, finalmente, acabar com esse terrível meio de exclusão que é o preconceito lingüístico. Devemos compreender que se alguém fala de maneira diferente da nossa não significa que ele nos seja inferior (ou superior). Assim como cor, raça, nacionalidade ou credo são apenas diferenças entre as pessoas e não sinal de superioridade ou inferioridade, o falar também não é.
Mas vamos falar agora de instrução, de escolaridade. Uma vez que estamos buscando instrução e crescimento sócio-econômico, que estamos cursando educação assim chamada “superior” devemos estar aptos a usar esse conhecimento que nos é oferecido na escola e podermos nos expressar de uma maneira muito bem cuidada na escrita, e no falar nos mais variados ambientes. Apesar de eu ter dito que o ensino de Língua Portuguesa tem de ser repensado e reavaliado, isso não significa que vamos ignorar tudo que aprendemos e jogar fora todo nosso cabedal de conhecimento gramatical e sair por aí dizendo que podemos escrever e nos expressar da maneira que bem nos aprouver pois “não existe mais erro de português”, aí sim estaríamos assinando nosso atestado de burrice pois tudo o que passamos na escola foi na verdade uma perda de tempo. Vamos abolir a língua portuguesa do currículo escolar? Os professores de português estão obsoletos? Não, vamos saber usar aquilo que aprendemos. No mínimo para poder compreender e os que falam diferente de nós e combater esse terrível câncer do preconceito. Não nos esqueçamos que foi o preconceito que levou Hitler a cometer os horrores que cometeu no século passado.

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home