maio 08, 2005

Monografia de pós-graduação

“O DOMÍNO DA NORMA CULTA DA LÍNGUA PORTUGUESA É UM INSTRUMENTO DE ASCENSÃO SOCIAL”
( MITO OU VERDADE ?)



por



Luís Honório Rodrigues Aquino






Monografia apresentada ao Departamento de Línguas, como requisito para obter o título de Especialista em Lingüística Aplicada ao Ensino de Língua Portuguesa, elaborada sob a orientação do prof. Ms. Agripino Fonseca.

Universidade Federal de Rondônia – UNIR/2005























Cris, che ro hay hu tereí.





















AGRADECIMENTO ESPECIAL
Ao amigo professor Ms Agripino Fonseca (que com humildade e modéstia prefere dispensar o título de Mestre), pela maneira desprendida com que pacientemente orientou este trabalho.

ÀS MESTRAS, COM CARINHO...


O trabalho intelectual exige grande esforço e dedicação por parte de quem deseja construir o conhecimento e, muitas vezes, essa construção não se faz possível se não se conta com o alicerce apropriado provido por pessoas dedicadas à realização desses objetivos.



À professora Doutora Nair Gurgel (aquela Senhora), que com carinho, sabedoria e a fidalguia de uma Lady me ensinou os primeiros passos no estudo da lingüística...

À professora Doutora Tânia Parmigiani, que, quando eu escrevi que a língua precisa do freio da gramática normativa para não virar bagunça, simplesmente escreveu ao lado:”será?”...

À professora Mestra (Doutora de fato, ainda que não de direito) Iracema Gabler que me mostrou que eu não pronunciava “ixatamenti du modu qui eu pensava pronunciar”...

À professora Mestra Sônia Sampaio que me ajudou compreender a poesia (embora ela mesma não goste do Casimiro) e que teve o dom de me incentivar a corrigir erros de ortografia, corrigindo a minha...

À professora Doutora Wani Sampaio, que me ensinou que “Us mininu joga bola” não é erro de português...

À professora Mestra (grande mestra) Carla Martins, que me ajudou a aprender a ensinar e a descobrir meus conceitos de “língua”...





A todas vocês o meu muito obrigado por firmarem meus pés no caminho do aprendizado e do ensino.















SUMÁRIO


1 PROPÓSITO ..................................................................................................06
2 CONCEITOS ..................................................................................................07
3 INTRODUÇÃO ...............................................................................................09
4 O QUE DIZEM OS GRAMÁTICOS ................................................................15
5 O QUE DIZEM OS LINGÜÍSTAS ...................................................................18
6 O QUE DIZEM OS FALANTES ......................................................................24
7 A “ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, INCULTA E BELA” .........................................26
8 CONCLUSÃO .................................................................................................29
9 BIBLIOGRAFIA ...............................................................................................32



















PROPÓSITO



O português falado em uma dada cidade não é exatamente o mesmo tomando-se como amostra apenas dois pontos geográficos ou duas diferentes classes sociais. Se isso é verdade para uma única cidade, que dizer para um país com a extensão territorial deste imenso Brasil. Dessa forma não precisamos argumentar muito para provar que não existe de fato uma unidade lingüística no nosso país e que, de um modo geral, a Norma Culta “padrão” não é exatamente um padrão.
Meu propósito é que, com a conclusão desta obra, eu possa ter uma base na qual possa alicerçar meu trabalho em sala de aula e procurar compreender as razões que levam as pessoas a tratar de forma preconceituosa aqueles que falam de maneira diferente da sua. Procurar responder à pergunta do título: O domínio da Norma Culta da língua portuguesa é realmente um fator de ascensão social?









CONCEITOS

Linguagem, s. f Sistema de palavras, nascido da vida social, para exprimir idéias e sentimentos e servir de comunicação entre os homens; fala; idioma; língua; dialeto; tudo o que serve para expressão de idéias e sentimentos; palavreado.

Lingual, ad]. m. Relativo à língua.

Lingüística, s. f. Estudo dos elementos constitutivos da linguagem articulada e das formas diversas que assumem ou podem assumir esses elementos; estudo da fonética e da estrutura das línguas.
(FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda — Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa — 1ª ed — Gamma, 1983)

Preconceito, s. m. Conceito antecipado e sem fundamento razoáveI; opinião formada sem ponderação; suposição; convencionalismo. (de prae + conceptu)
(FERNANDES, Francisco — Dicionário Brasileiro Globo/Francisco Fernandes, Celso Pedro Luff, F. Marques Guimarães — 51ª ed — SãoPaulo: Globo, 1999.)


Lingüístico(a), não foi encontrado nos dicionários pesquisados como pertencendo à classe dos adjetivos e parece ter sido levado a essa classe pelos lingüistas, talvez para diferir de lingual, adjetivo que ficaria restrito somente ao que se refere ao órgão língua.

Opinião formada sem ponderação. Sobre esta definição de preconceito é que basearei minhas considerações a respeito do preconceito lingüístico.

Preconceito Lingüístico. Expressão encontrada pela primeira vez no livro do mesmo nome do Prof. Dr. Marcos Bagno, refere-se ao preconceito contra toda e qualquer fala ou escrita diferente da usada pelo grupo que gera a idéia preconcebida.

Bem falar/ Bem escrever. 0 conceito de bem falar é um conceito vago. É vago porque remete para outros conceitos igualmente vagos, como língua e norma; é vago porque cruza planos, como variação e agramaticalidade; e é vago ainda porque confunde competência com talento. ( Alma Villalva - Professora de lingüística - Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa I grifo meu)










INTRODUÇÃO

Sempre fui um ouvinte preconceituoso, costumava ficar irritado e fazia mofa de quem eu ouvia falar de uma maneira que considerava “errada”. Errado, para mim, era ouvir o pronunciar de palavras de maneira diferente daquela que eu pronunciava, eram as concordâncias que não “concordavam”, era o que eu costumava chamar de assassinato da bela língua portuguesa.
Fazia comentários, no mínimo, zombeteiros e tachava o falante de “ignorante”.
Sem que me desse conta disso, eu tinha uma opinião formada sem ponderação, sem reflexão, baseada apenas naquilo que eu imaginava ser o correto em relação ao bem falar. Eu também tinha preconceito lingüístico.
Ao ingressar na Universidade para licenciar-me em Língua Inglesa, fui apresentado à simpática Senhora Lingüística que começou a me provocar arrepios a princípio mas com o tempo foi me seduzindo com seu falar manso e cheio de sabedoria e paciência com a minha ignorância.
Aquela Senhora começou a me mostrar que a maior parte daquilo que eu chamava de erro nada mais era do que maneiras diferentes de dizer aquilo que eu falava.
A chama que começou a iluminar meu entendimento no que diz respeito às minhas concepções preconceituosas foi o livro do Prof. Marcos Bagno, “Preconceito Lingüístico”, e minha atenção foi dirigida ao mito n0 8, “0 domínio da norma culta: um instrumento de ascensão social”. É com base nesse capitulo que pretendo montar este trabalho.


INSTRUMENTO DE ASCENSÃO SOCIAL

Bagno no, cap. 8 “O domínio da norma culta: um instrumento de ascensão social”, de seu livro diz: “Ora, se o domínio da norma culta fosse realmente um instrumento de ascensão social, os professores de português ocupariam o topo da pirâmide... nós... a quem são pagos os salários mais obscenos de nossa sociedade...” No entanto, são esses mesmos professores que inconsciente e inadvertidamente estão dando suporte a esse mito, incutindo nos seus alunos a idéia de que eles “não sabem falar português”, que “quem não se expressa em conformidade com a norma padrão não tem chances do ascender social e economicamente”. Somos nós (?) os que colaboram com o preconceito utilizando termos como “caipira” ou “matuto” para definir aqueles que não se comunicam dentro dos padrões estabelecidos de pronúncia e concordância, que no mais das vezes são os primeiros a fazer chacota do palavreado diferente que costumam ouvir de muitos de seus alunos. Um exemplo claro dessa realidade pode ser visto no texto “Nóis mudemo” de Fidêncio Bogo (1999) onde uma professora conta a triste história de sua participação na evasão de um aluno que se sentiu incapaz de atingir o nível que ela exigiu dele logo no primeiro contato. O infeliz acreditou que “não saber falar” era um defeito inato e que isso o excluiria do meio social dos “inteligentes” estando ele destinado à marginalidade eterna, para onde ele caminhou voluntariamente resignado.
Eu creio, no entanto, que a aproximação cada vez major de um falante às normas do padrão culto, pode ajudar a desfazer preconceitos. Pode melhorar sua auto-estima e o conceito que superiores e empregadores terão dele. Pode parecer um paradoxo que eu esteja tentando combater o preconceito e ao mesmo tempo sustentando que elevar o padrão de fala e escrita é algo desejável. Queiramos ou não, vivemos em uma sociedade capitalista onde o que vale é o que se tem a oferecer e o domínio de um bom padrão de linguagem certamente fará diferença na hora de selecionar um entre vários candidatos. Isto é tanto verdade que um bom domínio do padrão culto é um dos requisitos do vestibular, instrumento mais usado para selecionar candidatos às universidades (futuros professores).
Interessante é notar que todos os escritores engajados no combate ao preconceito lingüístico demonstram que dominam bem a norma culta, o seu desprezo é pelos que como eles também a dominam e pregam que ela deva ser usada e imposta como regra de bem falar e instrumento de separação entre “cultos” e “ignorantes”.
Quem escreve sobre este tipo de assunto demonstra um conhecimento notável da norma gramatical culta e, mesmo assim, continua a defender a livre expressão do falante que, em última (primeira) análise é o legítimo proprietário da língua, é, no mínimo, demonstração de bom senso.
Dinheiro não compra felicidade, mas não é muito fácil viver sem ele. Isso é válido também para o padrão lingüístico. Os empregadores e superiores não estudam o que nós (professores) estudamos e para eles, por enquanto, não são estas nossas razões que valem. Cabe a nós (professores), oferecer ao aluno condições para que a norma padrão lhe seja acessível como uma variação a mais e que tenha condições de utilizá-la na forma e ocasião adequada.

Marcos Bagno, no livro que serve de apoio para este trabalho diz: “o domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social... Infelizmente, a nossa tradição de ensino da língua está impregnada dessa ideologia geradora de preconceito, que dificulta o acesso das classes desfavorecidas à norma lingüística padrão.”(grifo meu)
As pesquisas sociolingüísticas revelam que se está muito longe dessa suposta "ascensão social". Existem sérias dificuldades de compreensão entre falantes de variedades cultas e não-cultas, e os falantes das variedades não-cultas deixam de usufruir de uma série de direitos simplesmente por não terem acesso à norma lingüística empregada pelas instituições em sua comunicação com os cidadãos. Será que todos os brasileiros, os camponeses sem-terra, os mendigos sem-teto, os moradores das periferias e das favelas das grandes cidades conseguem entender plenamente um noticiário como o Jornal Nacional da Rede Globo? A televisão chega a quase todas essas pessoas, mas a educação necessária e indispensável para a plena absorção das mensagens veiculadas pela televisão não chega. Numa conversa com um professor de nosso curso, ouvi um comentário sobre suas conclusões a respeito da popularização da educação; “Quando as lideranças começaram a sentir-se pressionadas pelas massas que exigiam acesso à educação, resolveram aquiescer mas cruelmente deixaram de incluir o item qualidade.” É uma grande ilusão acreditar que no Brasil alguém pode ascender socialmente apenas pelo fato de poder usufruir da educação provida pelas escolas públicas.
Aí vem a grande decepção; buscando ascender social e economicamente o cidadão procura a educação a que tem direito e ao chegar na escola encontra aquele professor que, como ele, não conseguiu a esperada ascensão, recebe “um salário obsceno” pelo hercúleo trabalho de ensinar e se tornou, ao longo dos anos, um cínico. Esse professor recebeu, ele mesmo, uma formação cheia de equívocos e preconceitos e acha que ensinar língua é despejar sobre o aluno uma enxurrada de regras gramaticais que nem mesmo ele emprega ou compreende completamente e comodamente transfere todas as suas dificuldades para o infeliz do aluno que será taxado, no mínimo, de desinteressado por não conseguir compreender o porquê de ter de aprender algo que certamente não será usado na sua vida rotineira ou de trabalho. Os meios de comunicação em massa, principalmente a TV, vão trazer artistas famosos dizendo “como é que se fala” ou “como é que se escreve”. Professores perfeitamente ajustados ao sistema e convencidos de que só eles conhecem e dominam a “norma” tornam-se igualmente famosos e massificam as pessoas das classes menos favorecidas mostrando a essas pessoas o quanto eles (os professores) são “inteligentes” e como as pessoas que não falam ou escrevem segundo aquelas “regras sobre regras” são deficientes. Está formada a confusão e, como nas culturas onde quem nasceu em determinada casta não pode migrar para outra, o preconceito lingüístico vai impedir o progresso de mais uma grande multidão de condenados.
Por outro lado verificamos que até mesmo os falantes ditos cultos, aquelas pessoas que têm acesso às regras padronizadas, incutidas no processo de escolarização, se mostram muito inseguras no momento de usar essas regras conservadoras.


A polêmica:

Existe uma enorme polêmica entre aqueles que defendem a necessidade de se preservar o uso da “norma culta” a todo custo (neste trabalho denominados “gramáticos”) e as que estão mais preocupados com a capacidade de comunicação — ler, falar e escrever dos indivíduos — (doravante “lingüistas”) levando em conta, principalmente, as suas condições sociais e econômicas.















O que dizem os gramáticos

NapoIeão Mendes de Almeida, falecido em 1998, considerado defensor intransigente da língua”, escreveu no seu Dicionário de questões vernáculas, de 600 páginas, coisas do tipo: “Os delinqüentes da língua portuguesa fazem do princípio histórico ‘quem faz a língua é o povo’ verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo, de sua gramática, de seu vocabulário... cozinheiras, babás, engraxates, trombadinhas, vagabundos, criminosos é que devem figurar, segundo esses derrotistas, como verdadeiros mestres de nossa sintaxe e legítimos defensores de nosso vocabulário”.

O prof. Bagno fica horrorizado: “Cozinheiras, babás, engraxates... no mesmo nível que trombadinhas, vagabundos e criminosos, um disparate” mas não é tudo, tem mais. Para Napoleão, a literatura brasileira morreu com Machado de Assis, tudo que veio com o modernismo e a modernidade é desprezível. Carlos Drummond de Andrade? nem pensar, Napoleão praticamente o excomunga e condena aos infernos só por ter trocado o verbo haver pelo ter no famoso poema “No meio do caminho tinha uma pedra”:

Luiz Antonio Sacconi, autor do livro Não erre mais!, um verdadeiro best-seller, que já está na 23ª edição, com 420 páginas! Um festival de besteiras (na minha opinião) que os leitores mais desavisados consomem com todo o tipo de preconceito lingüístico, político, social, etc., que vem dentro. Eis algumas de suas pérolas:
“Costumo dizer que algarismo romano é como vizinho: devemos evitá-lo tanto quanto possível”.

“Na Bahia, porém, na sempre formidável Bahia, as pessoas Se acordam. 0 mais interessante é que se acordam e vão direto à praia”.

“Hoje em dia existem pessoas que fazem curso superior em greves, formam-se no assunto e mostram-se tão competentes no oficio que decidem em nome de toda a classe que representam: pela continuidade da greve!”

“Recentemente, todavia, um comentarista de futebol, membro do PT, corintiano, resolveu dizer, no ar, mais asneiras do que comumente diz sobre aquilo que diz entender: futebol”.
E por ai vai. Na minha opinião parece mais um livro de piadas, de mau gosto, claro.
A professora Dad Squarisi, que escreve no Correio Braziliense as Dicas de Português, publicou no dia 22.6.96, (e foi republicada no Diário de Pernambuco no dia 15.11.98) 0 texto com o título Português ou Caipirês?, que se referia à viagem do presidente Fernando Henrique Cardoso a Portugal, quando acusou os brasileiros de serem todos caipiras.
Dad afirma que o brasileiro caipira, jeca-tatu, capiau, matuto, “sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa... não faz concordância em frases como Vende-se carros”.

























O que dizem os lingüistas

É correto dizer que as pessoas sem instrução falam errado? Por fugirem da regra escola-gramática-dicionário sua linguagem deve ser considerada defeituosa?

Analisando o texto da profª Dad Squarisi, Bagno mata a cobra e mostra o pau: “A questão da partícula se em enunciados do tipo vende-se casas vem sendo investigada há muito tempo nos estudos gramaticais e lingüísticos brasileiros. 0 que todos os estudiosos concluem é que, na língua falada no Brasil, no português brasileiro, ocorreu uma reanálise sintática nesse tipo de enunciado, isto é, o falante brasileiro não considera mais esses enunciados como orações passivas sintáticas. 0 que a gramática normativa insiste em classificar como sujeito a gramática intuitiva do brasileiro interpreta como objeto direto”.

Alexandre N. Santos, acadêmico de letras, publicou no site www.estudantes; “A sociolingüística (que é um dos campos mais promissores dos estudos lingüísticos) tem sido bastante consistente quando demonstra que as sociedades tem diversos “jeitos de falar” ou diversas “variantes lingüísticas”. Algumas variantes lingüísticas estão mais próximas da língua culta, outras estão mais distantes e isso não quer dizer que umas sejam superiores às outras.
O que a gente costuma pensar, quando discute esses assuntos é o seguinte: o falante (ou o usuário da língua) tem de usar a variante que mais se ajusta a situação. Por exemplo: quando estou conversando numa mesa de bar com amigos, eu não vou usar a norma culta... vou usar a fala coloquial. Quando estou me dirigindo a uma autoridade, não vou usar a fala coloquial, vou usar uma variante mais próxima da norma culta... quando estou na igreja, uso uma variante mais próxima do discurso religioso, e assim, sucessivamente.
Em resumo: não existe “falar errado” simplesmente associado ao conhecimento ou não das normas gramaticais. Podemos até aceitar que existe “falar errado”... mas o “falar errado” é quando a variante que alguém usa não está adequada à situação de comunicação”.

No mesmo site, eu publiquei uma resposta à seguinte questão levantada por Clovis Trezzi um acadêmico de Filosofia:
- “Tenho um professor que falou na sala de aula que não existe língua falada errada, mas sim diferentes dialetos para a mesma língua. Assim, falar craro, em vez de claro, não é errado. Gostaria de saber a opinião de vocês. Existe língua falada erradamente ou não? Dizer ‘subir pra cima’ é errado?”.

A resposta
- Língua errada...
Meu caro CIóvis, entre o que seu professor falou e o que você entendeu há um grande vazio onde podemos nos perder.
Primeiro é preciso lembrar que sua graduação está sendo em Filosofia e não em Letras, de maneira que muito do que seu professor de Língua Portuguesa (deve ser, pelo assunto tratado) está tentando lhe dizer, sofre com a falta de base em outras disciplinas. Introdução à Lingüística é o requisito mínimo para poder entender esse papo de “língua errada”. É provável que ele estivesse tentando dizer que ninguém comete erro ao falar, tanto que você pode entender muito bem uma pessoa falando português. Somente se o falante for portador de alguma deficiência mental é que ele poderá cometer erros, e aí vamos esclarecer o que seria um erro; “A bola joga mininu us”, “Mininu bola us joga”, “Joga us minino bola...” Esses seriam erros de português, a sintaxe estaria comprometida e assim o entendimento.
“Us mininu joga bola”, o problema com esse falante é que ele não tem intimidade com a norma padrão mas a sua gramática é bem lógica e econômica; o plural está marcado pelo artigo definido “us”, o verbo jogar e o substantivo mininu na sua gramática não precisam estar no plural por urna questão de economia (a língua é econômica). No inglês, por exemplo, a marca de plural fica só no substantivo; “The boys play soccer”, nem o artigo nem o verbo sofrem variação de numero.
Quando o falante diz “us mininu” ele não está cometendo nenhum erro, se você prestar bem a atenção, verá que quase a totalidade dos falantes, incluindo aí seus professores de Língua Portuguesa, se expressam desta maneira.
Nós precisamos é começar a compreender a diferença entre Norma Padrão e Língua. A Norma, é uma tentativa de imobilizar a vida da língua, de congelá-la impedindo seu curso natural de variação e mudança. Infelizmente a maioria dos professores de português ainda teima em ensinar gramática pensando estar ensinando português, essa língua a gente sabe, nascemos em uma família que fala esse idioma todo o tempo e convivemos com pessoas que se expressam por meio dele. É interessante atentar para o fato de que se as línguas não mudassem, ainda estaríamos falando Latim; se não houvesse mudança na língua não falaríamos “você” ou até mesmo “ce”, ainda estaríamos falando “vossa mercê”. Ensinar português seria na verdade dar ao aluno conhecimentos e instrumentos para que ele tomasse conhecimento das diversas variantes da língua, compreendesse porquê as pessoas de grupos diferentes do dele falam de maneira diferente da que ele fala. Compreender que existe uma variação tida pela sociedade como padrão, conhecer e poder utilizar esse padrão na ocasião apropriada e, finalmente, acabar com esse terrível meio de exclusão que é o preconceito lingüístico. Devemos compreender que se alguém fala de maneira diferente da nossa não significa que ele nos seja inferior (ou superior). Assim como cor, raça, nacionalidade ou credo são apenas diferenças entre as pessoas e não sinal de superioridade ou inferioridade, o falar também não é.
Mas vamos falar agora de instrução, de escolaridade. Uma vez que estamos buscando instrução e crescimento sócio-econômico, que estamos cursando educação assim chamada “superior’ devemos estar aptos a usar esse conhecimento que nos é oferecido na escola e podermos nos expressar de uma maneira muito bem cuidada na escrita, e no falar nos mais variados ambientes. Apesar de eu ter dito que o ensino de Língua Portuguesa tem de ser repensado e reavaliado, isso não significa que vamos Ignorar tudo que aprendemos e jogar fora todo nosso cabedal de conhecimento gramatical e sair por aí dizendo que podemos escrever e nos expressar da maneira que bem nos aprouver pois não existe mais erro de português”, aí sim estaríamos assinando nosso atestado de burrice pois tudo o que passamos na escola foi na verdade uma perda de tempo. Vamos abolir a língua portuguesa do currículo escolar? Os professores de português estão obsoletos? Não, vamos saber usar aquilo que aprendemos. No mínimo para poder compreender os que falam diferente de nós e combater esse terrível câncer do preconceito. Não nos esqueçamos que foi o preconceito que levou Hitler a cometer os horrores que cometeu no século passado.

Romário Schettino, jornalista e membro do Conselho Editorial da revista DF Letras escreve em um comentário sobre o livro Preconceito Lingüístico; “0 autor do livro descreve a existência de um círculo vicioso do preconceito lingüístico composto de três elementos: o ensino tradicional, a gramática tradicional e os livros didáticos. Na visão de Bagno, isso funciona assim: “a gramática tradicional inspira a prática de ensino, que por sua vez provoca o surgimento da indústria do livro didático, cujos autores, fechando o círculo, recorrem à gramática tradicional como fonte de concepções e teorias sobre a língua. A maneira como o ensino é administrado tem sido estudada pelo Ministério da Educação e em textos oficiais é admitido que há “muito preconceito decorrente do valor atribuído às variedades padrão e ao estigma associado às variedades não-padrão, consideradas inferiores ou erradas pela gramática. Essas diferenças não são imediatamente reconhecidas e, quando são, acabam se tornando objeto de avaliação negativa”.
Da mesma forma que alguns preconceitos (de raça, de gênero, de sexo) passam desapercebidos pela extrema regularidade com que são praticados, o lingüístico também resiste ao combate. E preciso reconhecer, entretanto, a efetividade dos movimentos de negros, de mulheres e de homossexuais no combate aos preconceitos específicos. Mas a verdade é que poucas pessoas se dão conta de que estão sendo perigosamente preconceituosas quando reafirmam que a língua falada aqui “é toda errada”, que “brasileiro não sabe português”, etc.
Foi por isso que Marcos Bagno fez a seguinte pergunta: “Se a existência do preconceito é reconhecida, inclusive, pela autoridade máxima da educação, por que o circulo continua girando?” A resposta: É porque os comandos paragramaticais estão funcionando a todo vapor com um arsenal invejável, com uma milícia bem preparada e bem posicionada no mercado editorial.





















O que dizem os falantes

“E até os erros do meu português ruim...”(Roberto Carlos — Detalhes)
Os poetas e escritores, em geral, não fazem questão de mostrar um português rebuscado. No mais das vezes nem mesmo o possuem e confessam abertamente sua “ignorância” em relação às normas da dona GN. Mesmo muitos dos “notáveis” de nossa sociedade não têm uma relação de afinidade com a Dona Norma:
Luís Fernando Veríssimo, conhecido escritor e cronista, com muita classe e bom humor, costuma fazer troça de sua falta de intimidade com a GN como podemos ver nestes trechos da crônica “Ponto e Vírgula” publicada no jornal Zero Hora de 18 de abri de 1999:
- “[...] a manchete de Zero Hora do dia seguinte ao da minha estréia foi ‘Castello hesita em cassar Lacerda’. E a manchete saiu com um terrível erro de ortografia. ‘Exita’ em vez de hesita. Na minha casa, duas certezas conflitantes – a de que eu era analfabeto e a de que eu já começaria no jornalismo fazendo manchetes de primeira página [...] mas [...] tenho conseguido me manter inocente de grandes pecados ortográficos e gramaticais [...] pelo menos se você não for um fanático sintático. Vez por outra, um leitor escandalizado me chama atenção por alguma barbaridade que eu prefiro chamar de informalidade, para não chamar de distração ou ignorância mesmo. Afinal, se a gente não pode tomar liberdades com a própria língua... E nenhum pronome fora de lugar justifica a perda de civilidade”.(grifo meu)
Ora, sabemos que L. F. V., apesar de sua falta de intimidade com a GN tem uma ótima posição social e econômica, além de ser reconhecido nacionalmente como um grande escritor.
Será que Antonio Rogério Magri, o conhecido ministro do governo Collor, teve sua ascensão social prejudicada por sua conhecida falta de educação formal? Claro que não. E foi ele o responsável pelo neologismo “imexível” empregado até mesmo nos meios cultos com muita naturalidade.
O apresentador Ratinho é nacionalmente conhecido pelo seu falar “atravessado”, às vezes até mesmo chulo. Certamente sua ascensão social e econômica não se deveu ao seu domínio da Norma Padrão, ao contrário, ele é freqüentemente criticado por não se expressar em conformidade com ela. Ele também é vitima de preconceito lingüístico.
Como explicar que alguém com pouca intimidade com a dona Norma pudesse ter alcançado o topo da pirâmide do poder político do país? É claro que o domínio da Norma Culta não foi fator determinante na ascensão do Presidente Lula.
Citemos alguém mais próximo de nós. O governador do estado de Rondônia, Ivo Cassol vive alardeando que “apesar de nunca ter estudado, hoje sou rico...”.








A última flor do Lácio

LÍNGUA PORTUGUESA
Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “Meu filho”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

“inculta e bela” — 0 poeta já tinha consciência de que esta língua viera de uma modalidade (im)popular do latim e que nada tinha de “culta”.
“rude e doloroso idioma”. Como podemos concordar que uma língua descrita como sendo inculta e rude possa ter uma norma dita “culta”? Qual é afinal o significado de ”culto”?
Nossa língua portuguesa tem sua origem no latim do vulgo, dos soldados romanos. Um latim que eu chamei de popular por ser empregado pelo povo comum, mas que era impopular para os cidadãos, para os dominantes que já então faziam da língua um instrumento de diferenciação e dominação. Como é possível que os dominantes de agora digam que essa “flor inculta” possa ter um padrão de bem falar e escrever?
“A língua muda com o tempo, segue seu curso, transforma-se. Afinal, se não fosse assim, ainda estaríamos falando latim...” (M. Bagno).
A “bela língua” em que Camões escreveu “Os Lusíadas” não pode ser exaltada como padrão pelo simples fato de que não existe mais. Não é possível para um leitor de hoje deliciar-se com os decassílabos heróicos na sua forma original sem estar munido de um conhecimento diacrônico da língua. Assi, esperar por mi, baxos arenosos, masto da nau, creceram, pera mi, fremosos olhos, rudos homens; são expressões empregadas pelo Poeta Maior e que o editor de texto de meu computador sublinhou de vermelho para indicar que contêm erros ou não são conhecidas.
Avançando um pouco mais no tempo cito dos versos de Olavo Bilac, clangor e trom, que também não foram reconhecidos pelo computador e ganga, silvo, procela e agreste, que são palavras desconhecidas para a maioria dos meus alunos.
A versão mais famosa da Santa Bíblia para o nosso idioma, feita no século dezessete por um padre português chamado João Ferreira de Almeida, é de difícil compreensão para os leitores atuais. Muitas palavras e expressões não são mais empregadas nos dias de hoje e isso é tão sério que a Sociedade Bíblica Brasileira já providenciou uma reformulação e lançou a “Bíblia na linguagem de hoje”, do mesmo modo a Igreja Romana tem lançado no mercado a “Bíblia de Jerusalém”, igualmente vertida para uma forma mais atual da nossa língua.
Tudo isso levando em conta apenas o vernáculo e a semântica, sem me aprofundar na gramática.
Onde está a Norma Culta? Como pode haver uma norma padrão para algo que está em contínua mudança?

























Conclusão

O Mito – O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social, que fecha o circuito mitológico da obra citada de M. Bagno, toca em sérias questões sociais. Bagno diz que o domínio da norma culta nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente e que não basta ensinar a norma culta a uma criança pobre para que ela " suba na vida". Precisa haver um reconhecimento da variação lingüística, porque segundo o autor, o mero domínio da norma culta não é uma fórmula mágica que, de um momento para outro, vai resolver todos os problemas de um indivíduo carente.
A transformação da sociedade como um todo está em jogo, pois enquanto vivermos numa estrutura social cuja existência mesma exige desigualdades sociais profundas, toda tentativa de promover a "ascensão" social dos marginalizados é, senão hipócrita e cínica pelo menos de uma boa intenção paternalista e ingênua.
A professora Alina Villalva da Faculdade de Letras de Lisboa comenta em um artigo publicado no semanário Notícias da Amadora: “A propósito de falar bem, referi, por último, a confusão entre competência e talento. Falar bem é um elogio geralmente aplicado a falantes com um discurso fluente e bem programado, que podem realmente ser vistos como falantes talentosos. Também embora toda a gente saiba correr, só alguns têm o talento que lhes permite ser atletas de alta competição.
Haverá, talvez, razões misteriosas para que tais situações de excepção (sic) se verifiquem, mas muito é biológico: os atletas de alta competição possuem precisas características físicas favoráveis; os bons oradores terão propriedades cognitivas semelhantemente propícias e adequadas.
Agora tanto num caso corno noutro, o trabalho é indispensável: aos atletas, o treino, a preparação física; aos bons conversadores, a formação e a prática. Se o talento é exclusivo de alguns, já esta dimensão, a do trabalho é mais generosa e está acessível a todos. Então, se nem todos podem ser falantes talentosos, oradores brilhantes, inesquecíveis conversadores, todos podem praticar a sua competência lingüística e basear no esforço individual a melhoria do seu uso do Português.”
Apesar de toda sua argumentação confrontando talento e competência a respeito de bem falar, como ela mesma disse, “bem falar é um conceito vago”, vejo um certo elitismo e contradição quando ela emite a afirmação acima sublinhada. Para que todos possam praticar a sua competência lingüística e basear no esforço individual a melhoria do seu uso do português faz-se necessário que todos tenham acesso a educação de boa qualidade, trabalho e moradia dignos e isso não é a que nós pobres mortais habitantes deste Gigante Deitado em Berço Esplêndido temos à disposição. Desta forma vamos continuar por algum tempo mais sofrendo e infligindo preconceito lingüístico, sustentando mitos em torno do bem falar e do bem escrever e acreditando que não sabemos falar português.
Baseado nesta pesquisa, pretendo de agora em diante trabalhar com meus alunos, ainda que lecionando língua estrangeira, de maneira a mostrar-lhes que o velho chavão “ a gente não sabe nem falar português direito, como é que pretendem nos ensinar inglês?” não é verdade. Todos sabemos falar muito bem a nossa língua portuguesa, acontece que, assim como existem brancos e negros e todos são seres humanos, também há diferentes maneiras de nos expressarmos no nosso idioma e nem por isso deixaremos de ser todos brasileiros. Tampouco as diferentes maneiras como cada comunidade de fala emprega o português serve como indicador de superioridade ou inferioridade.
As pessoas tratam de maneira preconceituosa aqueles que falam de maneira diferente da sua por terem sido assim ensinadas ao longo de toda sua vida social e escolar. Devido aos ranços fixados desde tempos ancestrais que serviam para manter a separação entre os dominantes e os dominados – “Nós falamos de forma diferente, vocês são dominados por nós, logo sua forma de falar é inferior à nossa. Todo aquele que se expressa de forma diferente da nossa não pertence à nossa classe, sendo por isso inferior a nós. Se você quiser chegar à nossa estatura, deve aprender e empregar a nossa forma de expressão”.
Por fim, penso que o domínio da chamada Norma Culta do português não é realmente um fator de ascensão social, os resultados obtidos até o presente momento apontam para o preconceito lingüístico que, entre outros acabam excluindo o trabalhador do processo produtivo. Li numa reportagem um dia destes que o presidente Lula teria feito uma brincadeira sobre o contraste entre a sua fala de algum tempo atrás e a “melhoria” que tem apresentado atualmente. Ele teria dito; “Lembra quando eu falava(...)? Acho que agora está mais bonito né?...”. O Presidente da República sendo vítima do seu próprio preconceito lingüístico! Contra si mesmo! Será que está sendo o seu atual desempenho lingüístico o fator que contribui para melhorar seu desempenho como estadista? Será que ele está mesmo conseguindo um “domínio” da Norma Culta e por conta disto se tornando melhor, ou ele está apenas preocupado com a imagem que precisa apresentar?

Luís Honório Rodrigues Aquino
Porto Velho, fevereiro de 2005.













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