Ano Novo vida nova...
Foram três anos de trabalho e dedicação a uma Escola que escolhi e amei. Conheci o Centro Estadual de Estudos para Jovens e Adultos no final do ano de 2003 quando minha filha precisou prestar exames de suplência em duas matérias em que havia sido reprovada e sua escola. De cara fiquei encantado com a singeleza e aconchego do ambiente e me apaixonei.
Por acaso, num dos corredores encontrei a Bete, antiga colega de faculdade e começamos a conversar. Fiquei sabendo que ela era a vice-diretora do CEEJA e que eles estavam precisando de um professor de Língua Inglesa. Fui apresentado à diretora, Professora Regina, que também conquistou minha simpatia pela sua maneira direta e objetiva ao expor suas idéias e opiniões. Como resultado desses amores à primeira vista fui convidado a lecionar na escola, logo os tramites burocráticos estavam resolvidos e eu era o mais novo membro do corpo docente do CEEJA Padre Moretti.
Meu amor por aquela escola e minha determinação em sempre fazer as coisas de maneira ordeira, sistemática e de qualidade fizeram com que meu trabalho sempre fosse reconhecido pela direção, embora nem sempre pelos alunos a quem sempre amei.
Colquei meu coração no trabalho que dediquei àquela querida escola e disso não me arrependerei jamais.
Um dia, ao chegar na escola para mais um turno de aulas, senti algo de apreensivo no ar e nas feições dos colegas e alunos. "Que aconteceu?" perguntei a alguém, "Você não soube o que aconteceu ontem?" foi a resposta. O dia anterior havia sido o meu dia de planejamento, de maneira que não viera à escola e ainda não soubera da novidade: o CEEJA tinha uma nova direção. Soube que no dia anterior um trio de, digamos, "interventores" havia aterrissado na escola e, como um pelotão de paraquedistas bem treinados, "dominado" a direção e secretaria, assumindo o controle da escola. A diretora e seu vice foram sumariamente destituidos de suas funções e proibidos de retornar à escola sob qualquer pretexto. Nunca cheguei a ser apresentado ao novo diretor, sua sala estava sempre fechada e , nas poucas vezes que cruzei com aquele estranho pelos corredores da escola ele sequer teve a fineza de me cumprimentar.
Oclima na escola passou a ser de completo terror, cada dia uma leva de professores era devolvida para Secretaria de Educação. Assim, de modo sumário, sem qualquer explicação, consulta ou aviso anterior.
Não sou de me amedrontar, de maneira que o clima de terror que pairava sobre as cabeças de alguns colegas não chegou a me envolver, mas eu sabia que meus dias de Padre Moretti estavam contados. Sou um profissional e professor concursado, temer por quê? Trabalho em qualquer ambiente para onde for enviado, sem trabalho não ficaria, além do mais eu tenho minha aposentadoria da Força Aérea, trabalho na educação por prazer, não por necessidade.
Continuei minha rotina de aulas e avaliações até que exatamente no dia posterior ao da entrega das notas à secretaria, quando iria acontecer uma comemoração pela conclusão do ensino médio das turmas do noturno (comemoração esta organizada por algumas professoras, com a colaboração de outros voluntários, dos quais eu era um, e sem sequer o apoio da nova direção), procurei minha folha de ponto para assinar e verifiquei que ela não se encontrava no local. Perguntei à secretária o que significava aquilo e ela sorrindo disse que eu deveria procurar o diretor.
Como diz o gaúcho; "não nasci por susto nem me intimido com grito", de maneira que me dirigi até a sala do fulano que , como sempre, estava fechada. Abri a porta e percebi um burburinho de us cinco ou seis professores que lá estavam confabulando com o "todo poderoso", sem muita cerimônia fui logo perguntando ao camarada o que acontecia quando a folha de ponto da gente desaparecia. Ele levantou os olhos e disse, "Ah, o senhor foi colocado à disposição da SEDUC".
"Meu amigo", disse eu, "você está fazendo isso não por ser o Todopoderoso, mas por ter sido colocado nessa posição por alguém que não gostava do bom trabalho da professora Regina. Nunca sequer me dirigiu a palavra, aliás até este momento eu não o conhecia, você me manda embora sem sequer me comunicar ou me dizer o motivo... Fique sabendo que, um dia, alguém que não gosta de seu trabalho certamente fará isso com você também. Não vou chorar nem implorar por clemência por que sou professor concursado, profissional competente e trabalho por amor à educação e não por necessidade, sou da Reserva da Força Aérea e não um mendigo. Você desde que chegou está mandando embora tudo o que era o CEEJA, uma equipe de bons profissionais, está se cercando dos cordeirinhos sem brio que ficarão sob seu mando sem questionar suas ações por medo de ser mandados para outra escola. Um abraço". E fui embora.
Alguns dias depois fui até a Representação de Ensino e em dez minutos já estava com lotação na Escola Oswaldo Piana, a uns dois quilômetros de onde moro. Vou continuar meu trabalho com toda seriedade anterior por ser essa uma característica de minha personalidade. Aos meus antigos alunos deixo minha saudade e a certeza de que poderão sempre contar comigo independente do lugar ou ocasião e aos futuros, "me aguardem".
