A gente vamos procurar respostas...
Minha graduação é em língua inglesa, não tenho uma intimidade muito aprofundada com as normas da gramática normativa da língua portuguesa. Meus conhecimentos nessa área restringem-se ao necessário para o exercício de minha atividade de professor de língua inglesa e para exercer o papel de falante e ouvinte nos meios sociais e comunidades de fala aos quais tenho acesso.
Meu comportamento como ouvinte no entanto, tem sido ao longo de minha vida o de um crítico perspicaz e severo de tudo aquilo que até bem pouco tempo costumava chamar de “erros de português”. Sempre que possível era (é?) meu costume chamar a atenção de quem comete tais “erros” e tentar esclarecer a pessoa que os comete. Quando surge uma dúvida, procuro pesquisar e conhecer como deveria ser a forma correta de dizer ou escrever (como é que se escreve?).
Costumava considerar erro gramatical toda concordância plural com sujeito coletivo ou partitivo. Meu raciocínio não conseguia conceber uma razão plausível para esse tipo de concordância.
Quando ouvia o âncora do JN falar que “80% das crianças sofrem de algum tipo de doença psicossomática” ou “a maioria das pessoas concordam com a opinião dos médicos”, ficava chocado e (ainda) costumo dizer (mesmo estando sozinho), “80% sofre”, “a maioria concorda”. “A gente vamos” ou expressões desse tipo é para mim pecado capital, punível com, no mínimo, um sorriso sarcástico e boca e nariz torcido.
Veio-me à mente escolher este assunto para pesquisar. Apesar de ultimamente ter pouco tempo para a televisão, tenho um contato diário com uma boa amostra de falantes de um bom número de diferentes classes sociais; meus alunos e mesmo colegas professores.
Observar os jornais não apresentava muitas dificuldades além da de ter de “fabricar” tempo para assistir. Quanto aos alunos, pensei em facilitar e agilizar a tarefa construindo um questionário que pudesse induzi-los a usar a concordância pesquisada e mostrar o raciocínio que os levou a assim proceder.
Ótima idéia, “mas quem vai colocar o guizo no gato?”, um questionário escrito começou a afigurar-se como algo complicado para empregar. As pessoas não são naturais ao escrever, elas se policiam, e a autenticidade ficaria comprometida. Tinha de ser algo muito engenhosamente estruturado para que as perguntas dirigissem o falante (escrevente) a ser natural e essa criatividade argumentativa me é penosa, sou imediatista e as coisas comigo têm de ser instantâneas. O espaço de tempo requerido para a pesquisa era curto e não disponho de muito tempo livre.
Mudança de planos, vamos partir para a observação. Abandonei meia dúzia de perguntas penosamente estruturadas e comecei a esperar as ocorrências.
1ª dúvida
Com a atenção preparada para encontrar essas “barbaridades” postei-me durante dois dias perante a TV para assistir o jornal da Rede Globo e do SBT após retornar do trabalho. Minha surpresa misturou-se com a decepção, consegui registrar somente três ocorrências:
- “A maioria das cidades brasileiras não possuem um sistema eficaz de saneamento básico...”
- Quase que a totalidade das ocorrências foram registradas no período noturno...”
- 68% dos telespectadores concordam com esta opinião...”
Como já comentei, não tenho uma intimidade muito chegada com a dona GN por isso sempre acreditei que com um sujeito coletivo a concordância seria sempre no singular
“O verbo sempre concordará com seu sujeito em número e pessoa.”
“Quando o sujeito é um coletivo, o verbo ficará no singular”
... mas existem exceções...
“Com sujeito coletivo pode ocorrer o plural quando o coletivo, anteposto ao verbo, vier seguido de um adjunto adnominal no plural.”
Esse pode dá uma flexibilidade na rigidez da regra e permite fazer opções que para este incauto afigurava-se em um erro de concordância. Saúdo a essa Senhora GN com todo respeito e escusas pela ignorância do macaco.
Sendo assim, os sujeitos coletivos “maioria”, “totalidade” e “68%” estando antepostos aos verbos das orações e sendo seguidos dos adjuntos adnominais “das cidades”, “das ocorrências” e ”dos telespectadores”, encaixam-se perfeitamente na regra de ser uma exceção à regra e poderem concordar com o plural.
1ª resposta
Fui traído por uma idéia preconcebida que me levava a ouvir algo que não estava sendo falado, quando ouvia uma concordância de sujeito coletivo com o plural acreditava estar ouvindo uma construção equivocada e não atentava para os adjuntos adnominais que acompanhavam o sujeito.
Considerando que não existe erro de GN nestas construções concluí que ambas as emissoras devem ter escolhido optar pela exceção no momento de redigir os textos de seus noticiários e manter essa opção como padrão editorial. Parece-me que esta opção seria levada a efeito pelo modelo de raciocínio que construí na hipótese; a concordância com a idéia de plural.
2ª dúvida
Vamos partir agora para o caso das construções usadas na fala coloquial, no uso da língua no que eu considero sua função principal, comunicação entre seres humanos sem qualquer preocupação a não ser a de interagir com semelhantes. Ouçamos alguns alunos do 1º ano do Ensino Médio:
- “E aí teacher! Quando é que a gente vamos saber as notas?”
- “Agora a gente sabemos que ninguém dá valor pra gente.”
- “Todo mundo foram pra quadra.”
- “A turma vão fazer um trabalho de química na biblioteca.”
- “Pô! A maioria não querem nada com nada.” (essa foi de um professor)
Por quê?
Fiz esta pergunta logo após cada ocorrência e obtive três tipos de respostas;
- Sei lá! Não é assim?
- Puxa, a gente nem se dá conta. Tá tão acostumado a ouvir que acaba saindo assim...
- Ué, a gente não é a mesma coisa que nós?/ Todo mundo não é plural?
Minha resposta
Respostas do primeiro tipo denotam o tipo de reação indiferente que tem gerado o senso comum entre professores de que “os alunos não querem nada com nada”.
As do segundo tipo mostram a falta de cuidado no uso daquilo que se tem procurado ensinar.
As do terceiro tipo são as que me interessam mais. Parecem confirmar minha hipótese da concordância com a idéia de plural. Além disso mostram claramente a fase de mudança ou evolução por que está passando a língua falada, estamos paulatinamente substituindo o pronome pessoal da segunda pessoa do plural nós pelo coletivo a gente mas a concordância teima em ficar com o plural. É um fenômeno semelhante ao uso generalizado do pronome de tratamento você em substituição ao pronome pessoal tu mas com a concordância com a segunda pessoa em vez de com a terceira como gostaria a Senhora GN.
Concluindo
A pesquisa foi muito superficial mas parece que me deu algumas respostas interessantes. A primeira foi a de parecer concordar com minha hipótese: o processo mental de fazer concordância com a idéia de plural e não com o modelo bonitinho que a dona GN nos mostra e tenta impor. A segunda foi estarrecedora: sempre me julguei um defensor da “boa escrita” e da “boa fala” (e ainda me coloco nessa posição) mas começo a perceber que sorrateiramente estou sendo contaminado pelo germe da compreensão dos fenômenos que produzem as mudanças na língua e pronto a, pelo menos, compreender algumas posturas e o que é pior, talvez até um dia a defendê-las. De qualquer forma isso estava previsto no projeto.
A última flor do Láscio está cada vez mais inculta(?), mas sua beleza não fenece. Sendo esplendor, jamais será sepultura pois como a Fênix que renascia das próprias cinzas, a cada mudança ela se renova e nesta Terra Brasilis ela se tem transformado, lapidada pelo uso desta mistura de povos e línguas que é a brava e criativa gente brasileira.
