novembro 03, 2004

A gente vamos procurar respostas...


Minha graduação é em língua inglesa, não tenho uma intimidade muito aprofundada com as normas da gramática normativa da língua portuguesa. Meus conhecimentos nessa área restringem-se ao necessário para o exercício de minha atividade de professor de língua inglesa e para exercer o papel de falante e ouvinte nos meios sociais e comunidades de fala aos quais tenho acesso.
Meu comportamento como ouvinte no entanto, tem sido ao longo de minha vida o de um crítico perspicaz e severo de tudo aquilo que até bem pouco tempo costumava chamar de “erros de português”. Sempre que possível era (é?) meu costume chamar a atenção de quem comete tais “erros” e tentar esclarecer a pessoa que os comete. Quando surge uma dúvida, procuro pesquisar e conhecer como deveria ser a forma correta de dizer ou escrever (como é que se escreve?).
Costumava considerar erro gramatical toda concordância plural com sujeito coletivo ou partitivo. Meu raciocínio não conseguia conceber uma razão plausível para esse tipo de concordância.
Quando ouvia o âncora do JN falar que “80% das crianças sofrem de algum tipo de doença psicossomática” ou “a maioria das pessoas concordam com a opinião dos médicos”, ficava chocado e (ainda) costumo dizer (mesmo estando sozinho), “80% sofre”, “a maioria concorda”. “A gente vamos” ou expressões desse tipo é para mim pecado capital, punível com, no mínimo, um sorriso sarcástico e boca e nariz torcido.
Veio-me à mente escolher este assunto para pesquisar. Apesar de ultimamente ter pouco tempo para a televisão, tenho um contato diário com uma boa amostra de falantes de um bom número de diferentes classes sociais; meus alunos e mesmo colegas professores.
Observar os jornais não apresentava muitas dificuldades além da de ter de “fabricar” tempo para assistir. Quanto aos alunos, pensei em facilitar e agilizar a tarefa construindo um questionário que pudesse induzi-los a usar a concordância pesquisada e mostrar o raciocínio que os levou a assim proceder.
Ótima idéia, “mas quem vai colocar o guizo no gato?”, um questionário escrito começou a afigurar-se como algo complicado para empregar. As pessoas não são naturais ao escrever, elas se policiam, e a autenticidade ficaria comprometida. Tinha de ser algo muito engenhosamente estruturado para que as perguntas dirigissem o falante (escrevente) a ser natural e essa criatividade argumentativa me é penosa, sou imediatista e as coisas comigo têm de ser instantâneas. O espaço de tempo requerido para a pesquisa era curto e não disponho de muito tempo livre.
Mudança de planos, vamos partir para a observação. Abandonei meia dúzia de perguntas penosamente estruturadas e comecei a esperar as ocorrências.


1ª dúvida
Com a atenção preparada para encontrar essas “barbaridades” postei-me durante dois dias perante a TV para assistir o jornal da Rede Globo e do SBT após retornar do trabalho. Minha surpresa misturou-se com a decepção, consegui registrar somente três ocorrências:

- “A maioria das cidades brasileiras não possuem um sistema eficaz de saneamento básico...”
- Quase que a totalidade das ocorrências foram registradas no período noturno...”
- 68% dos telespectadores concordam com esta opinião...”

Como já comentei, não tenho uma intimidade muito chegada com a dona GN por isso sempre acreditei que com um sujeito coletivo a concordância seria sempre no singular

“O verbo sempre concordará com seu sujeito em número e pessoa.”
“Quando o sujeito é um coletivo, o verbo ficará no singular”

... mas existem exceções...

“Com sujeito coletivo pode ocorrer o plural quando o coletivo, anteposto ao verbo, vier seguido de um adjunto adnominal no plural.”

Esse pode dá uma flexibilidade na rigidez da regra e permite fazer opções que para este incauto afigurava-se em um erro de concordância. Saúdo a essa Senhora GN com todo respeito e escusas pela ignorância do macaco.

Sendo assim, os sujeitos coletivos “maioria”, “totalidade” e “68%” estando antepostos aos verbos das orações e sendo seguidos dos adjuntos adnominais “das cidades”, “das ocorrências” e ”dos telespectadores”, encaixam-se perfeitamente na regra de ser uma exceção à regra e poderem concordar com o plural.


1ª resposta
Fui traído por uma idéia preconcebida que me levava a ouvir algo que não estava sendo falado, quando ouvia uma concordância de sujeito coletivo com o plural acreditava estar ouvindo uma construção equivocada e não atentava para os adjuntos adnominais que acompanhavam o sujeito.
Considerando que não existe erro de GN nestas construções concluí que ambas as emissoras devem ter escolhido optar pela exceção no momento de redigir os textos de seus noticiários e manter essa opção como padrão editorial. Parece-me que esta opção seria levada a efeito pelo modelo de raciocínio que construí na hipótese; a concordância com a idéia de plural.



2ª dúvida
Vamos partir agora para o caso das construções usadas na fala coloquial, no uso da língua no que eu considero sua função principal, comunicação entre seres humanos sem qualquer preocupação a não ser a de interagir com semelhantes. Ouçamos alguns alunos do 1º ano do Ensino Médio:

- “E aí teacher! Quando é que a gente vamos saber as notas?”
- “Agora a gente sabemos que ninguém dá valor pra gente.”
- “Todo mundo foram pra quadra.”
- “A turma vão fazer um trabalho de química na biblioteca.”
- “Pô! A maioria não querem nada com nada.” (essa foi de um professor)





Por quê?
Fiz esta pergunta logo após cada ocorrência e obtive três tipos de respostas;

- Sei lá! Não é assim?
- Puxa, a gente nem se dá conta. Tá tão acostumado a ouvir que acaba saindo assim...
- Ué, a gente não é a mesma coisa que nós?/ Todo mundo não é plural?


Minha resposta
Respostas do primeiro tipo denotam o tipo de reação indiferente que tem gerado o senso comum entre professores de que “os alunos não querem nada com nada”.
As do segundo tipo mostram a falta de cuidado no uso daquilo que se tem procurado ensinar.
As do terceiro tipo são as que me interessam mais. Parecem confirmar minha hipótese da concordância com a idéia de plural. Além disso mostram claramente a fase de mudança ou evolução por que está passando a língua falada, estamos paulatinamente substituindo o pronome pessoal da segunda pessoa do plural nós pelo coletivo a gente mas a concordância teima em ficar com o plural. É um fenômeno semelhante ao uso generalizado do pronome de tratamento você em substituição ao pronome pessoal tu mas com a concordância com a segunda pessoa em vez de com a terceira como gostaria a Senhora GN.


Concluindo
A pesquisa foi muito superficial mas parece que me deu algumas respostas interessantes. A primeira foi a de parecer concordar com minha hipótese: o processo mental de fazer concordância com a idéia de plural e não com o modelo bonitinho que a dona GN nos mostra e tenta impor. A segunda foi estarrecedora: sempre me julguei um defensor da “boa escrita” e da “boa fala” (e ainda me coloco nessa posição) mas começo a perceber que sorrateiramente estou sendo contaminado pelo germe da compreensão dos fenômenos que produzem as mudanças na língua e pronto a, pelo menos, compreender algumas posturas e o que é pior, talvez até um dia a defendê-las. De qualquer forma isso estava previsto no projeto.
A última flor do Láscio está cada vez mais inculta(?), mas sua beleza não fenece. Sendo esplendor, jamais será sepultura pois como a Fênix que renascia das próprias cinzas, a cada mudança ela se renova e nesta Terra Brasilis ela se tem transformado, lapidada pelo uso desta mistura de povos e línguas que é a brava e criativa gente brasileira.

Língua errada...

Encontrei no site "Estudantes" uma discusssão onde um aluno dizia que um seu professor havia falado que não existem erros de "língua falada" e buscava respostas para suas dúvidas. Esta foi a resposta que lhe enviei:

Meu caro Clóvis, entre o que seu professor falou e o que você entendeu há um grande vazio onde podemos nos perder.
Primeiro é preciso lembrar que sua graduação está sendo em Filosofia e não em Letras, de maneira que muito do que seu professor de Língua Portuguesa (deve ser, pelo assunto tratado) está tentando lhe dizer sofre com a falta de base em outras disciplinas. Introdução à Lingüística é o requisito mínimo para poder entender esse papo de ‘língua errada’. É provável que ele estivesse tentando dizer que ninguém comete erro ao falar, tanto que você pode entender muito bem uma pessoa falando português. Somente se o falante for portador de alguma deficiência mental é que ele poderá cometer erros, e aí vamos esclarecer o que seria um erro; “A bola joga mininu us”, “Mininu bola us joga”, “Joga us minino bola”... Esses seriam erros de português, a sintaxe estaria comprometida e assim o entendimento.
“Us mininu joga bola”, o problema com esse falante é que ele não tem intimidade com a norma padrão mas a sua gramática é bem lógica e econômica; o plural está marcado pelo artigo definido “us”, o verbo jogar e o substantivo mininu na sua gramática não precisam estar no plural por uma questão de economia (a língua é econômica). No inglês, por exemplo, a marca de plural fica só no substantivo; “The boys play soccer”, nem o artigo nem o verbo sofrem variação de número.
Quando o falante diz “us mininu” ele não está cometendo nenhum erro, se você prestar bem a atenção, verá que quase a totalidade dos falantes, incluindo aí seus professores de Língua Portuguesa, se expressam desta maneira.
Nós precisamos é começar a compreender a diferença entre Norma Padrão e Língua. A Norma , é uma tentativa de imobilizar a vida da língua, de congelá-la impedindo seu curso natural de variação e mudança. Infelizmente a maioria dos professores de português ainda teima em ensinar gramática pensando estar ensinando português, essa língua a gente sabe, nascemos em uma família que fala esse idioma todo o tempo e convivemos com pessoas que se expressam por meio dele. É interessante atentar para o fato de que se as línguas não mudassem, ainda estaríamos falando Latim; se não houvesse mudança na língua não falaríamos “você” ou até mesmo “cê”, ainda estaríamos falando “vossa mercê”. Ensinar português seria na verdade dar ao aluno conhecimentos e instrumentos para que ele tomasse conhecimento das diversas variantes da língua, compreendesse porquê as pessoas de grupos diferentes do dele falam de maneira diferente da que ele fala. Compreender que existe uma variação tida pela sociedade como padrão, conhecer e poder utilizar esse padrão na ocasião apropriada e, finalmente, acabar com esse terrível meio de exclusão que é o preconceito lingüístico. Devemos compreender que se alguém fala de maneira diferente da nossa não significa que ele nos seja inferior (ou superior). Assim como cor, raça, nacionalidade ou credo são apenas diferenças entre as pessoas e não sinal de superioridade ou inferioridade, o falar também não é.
Mas vamos falar agora de instrução, de escolaridade. Uma vez que estamos buscando instrução e crescimento sócio-econômico, que estamos cursando educação assim chamada “superior” devemos estar aptos a usar esse conhecimento que nos é oferecido na escola e podermos nos expressar de uma maneira muito bem cuidada na escrita, e no falar nos mais variados ambientes. Apesar de eu ter dito que o ensino de Língua Portuguesa tem de ser repensado e reavaliado, isso não significa que vamos ignorar tudo que aprendemos e jogar fora todo nosso cabedal de conhecimento gramatical e sair por aí dizendo que podemos escrever e nos expressar da maneira que bem nos aprouver pois “não existe mais erro de português”, aí sim estaríamos assinando nosso atestado de burrice pois tudo o que passamos na escola foi na verdade uma perda de tempo. Vamos abolir a língua portuguesa do currículo escolar? Os professores de português estão obsoletos? Não, vamos saber usar aquilo que aprendemos. No mínimo para poder compreender e os que falam diferente de nós e combater esse terrível câncer do preconceito. Não nos esqueçamos que foi o preconceito que levou Hitler a cometer os horrores que cometeu no século passado.

VINTE E QUATRO HORAS





Seis e trinta – de pé, banho, roupa.
Seis e quarenta – leite, pão, creme, escova.
Sete em ponto – carro, portão,estrada
Sete e quinze – mulher, filhos, escola.
– Caúla, Carlos Gomes, Dutra, Abunã.
Sete e trinta e cinco – RIOMAR, sala 17, colegas, Nair.
– Exposição, debate, leitura, atenção, escrita.
Dez em ponto – pastel, coca-cola, sol, conversa,
Dez e quinze – sala 17, Nair, debate, fala, atenção, risos, seriedade, tensão (A MONOGRAFIA)
Onze e quarenta e cinco – estacionamento, carro, caronas.
– Abunã, Dom Pedro, Caúla, Rio Madeira.
Doze em ponto – mulher, filhos.
– Rio Madeira, Raimundo Cantuária, Jorge Teixeira, Almirante, José de Alencar.
Doze e quinze – prato, talher, fila, comida, mesa, refri, conversa, descanso, sorrisos.
– Praça, sorvete, passeio, correio, até logo.
– José de Alencar, Dutra,Pinheiro Machado, filha(serviço), Brasília, Joaquim Nabuco, Escola, sala dos professores, cadeira, olhos fechados.
Uma e trinta – sinal, pasta, sala, chamada, aula.
Duas e trinta – sinal, pasta, sala, chamada, aula.
Três e trinta – sinal, sala dos professores, cadeira,conversa
Três e quarenta e cinco – sinal, pasta, sala, chamada, aula.
Quatro e quarenta e cinco – sinal, pasta, sala, chamada, aula.
Cinco e quarenta e cinco – sinal, pasta, chave, carro.
– Joaquim Nabuco, Lauro Sodré, Circuito, silêncio, lanche, viagem, pôr-do-sol...
– Lauro Sodré, Joaquim Nabuco, Escola.
Seis e cinqüenta – sala dos professores, cadeira,ar condicionado, conversa.
Sete em ponto – sinal, pasta, sala, chamada, aula.
Sete e cinqüenta – sinal, pasta, sala, chamada, aula.
Oito e quarenta – sinal, pasta, sala dos professores, lanche, conversa.
Oito e cinqüenta e cinco – sinal, pasta, sala, chamada, aula.
Nove e quarenta e cinco – sinal, pasta, sala, chamada, aula.
Dez e trinta e cinco – sinal, pasta, chaves, pasta, carro.
– Abunã, Calama, Mamoré, 364, portão, garagem, pasta, porta, beijos, conversa, mesa, luminária, computador, caneta, pastas, textos, planejamento, (O TEXTO DA NAIR...), SONO(?)...
– A cama, ela, a ..........., ..........., ahhhh, ahhhh, hummm, hummm, huuuummm...aaahhh....aaahhh.. zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz............................................................................
SEIS E TRINTA!!!!!







Aquino – jun/ 2004