Falta de Educação
O Brasil é um país que viveu a terrível realidade de uma ditadura militar na metade final do século passado. Muita gente morreu e até mesmo matou em defesa da liberdade de pensamento, dos direitos civis e de escolher seus governantes. Foram os anos de chumbo nos quais mostramos nossa determinação em transformar este chão em um lugar onde pudéssemos viver com dignidade e respeito.
Hoje temos o direito de escolher aqueles que irão nos representar na condução deste gigante que é nosso país. No momento em que os candidatos a representantes do povo se apresentam diante de nós, vemos discursos de leões defensores do povo, lobos e raposas envergando as vestes e a aparência de cândidos e gentis cordeiros dispostos a destemidamente dar seu próprio sangue na defesa e em favor dos representados. Infelizmente a péssima qualidade da educação oferecida durante décadas pelo Estado acabou tornando o povo em uma imensa massa de pessoas desprovidas de informação e senso crítico. Nosso povo carece dos mais básicos conhecimentos e recursos intelectuais para poder exercer plenamente seus direitos e deveres eleitorais e, como conseqüência disso, acabamos colocando no poder pessoas que, sem o menor escrúpulo, o usarão em benefício próprio. Somo um país de pessoas que, como disse uma vez o rei Pelé, não sabemos votar e não sabemos por que somos ignorantes. Somos ignorantes porque fomos acostumados ao longo de todos esses anos a sermos dependentes do governo, fomos maquiavelicamente viciados pelo Estado a receber dele tudo, desde a alimentação. Essa mesma estratégia maquiavélica foi usada na educação; o Estado faz propaganda, mostra crianças comendo na escola, assume um discurso demagógico onde a educação está em primeiro lugar, mas NÃO DÁ QUALIDADE.
Mas afinal, o que vem a ser qualidade na educação?
Para termos qualidade precisamos de Escolas, escolas com, pelo menos, boa estrutura física. Salas de aula onde os alunos possam sentir que são valorizados, um ambiente confortável e prazeroso em vez de locais superlotados e sem conservação. Escolas onde haja recursos suficientes para aquisição de material de apoio. Onde haja bibliotecas de verdade em vez de uma salinha onde se amontoam livros velhos e atendida por pessoal desqualificado. Em plena era da informática uma coisa que muito pouco se vê nas escolas são computadores. Quando os há carecemos de pessoal para mantê-los e de recursos para permitir que os alunos possam aprender a utilizar-se deles em benefício da construção de seu conhecimento.
Qualidade é modernização, tanto dos instrumentos de apoio quanto do pessoal humano. É modernização da aplicação do conhecimento, é geração de novas idéias.
Para se ter qualidade de ensino é preciso começar a pensar no ensino não como um contínuo repetir de procedimentos e metodologias sem sentido. Não uma repetição de discursos de antigos pensadores, mas a formação de novos. Não no comodismo da eterna rotina dos escritórios de secretarias onde se amontoam antigos burocratas que nunca viram uma sala de aula mas que teimam em manter ou ditar regras e procedimentos há muito superadas. Qualidade de ensino é tirar a educação da mão dos políticos e coloca-la nas mãos de quem realmente entende dela, os professores.
Qualidade no ensino é oferecer ao aluno professores de qualidade. É investir, (eu disse INVESTIR) na formação de professores. Professores pensantes, críticos, lúcidos, bem preparados tanto teórica quanto praticamente. Professores que disponham de tempo para preparar suas aulas com seriedade e responsabilidade. Professores que tenham como única preocupação a formação de seus alunos em vez de ter de ficarem pensando em como pagar o aluguel ou a conta do supermercado, da farmácia, do combustível e da oficina mecânica(para os que têm condução). Professores que possam descansar suas mentes no agradável lazer e na companhia da família em vez de se assoberbar com o acúmulo de empregos para poder garantir um salário razoável e tentar manter a família.
O professor é um dos poucos profissionais cujo serviço não fica no local de trabalho quando ele vai para casa. Imagine um professor de uma disciplina cuja freqüência de aulas seja de apenas uma por semana; para cumprir sua carga de trabalho de 30 horas aula semanais ele tem de assumir 30 turmas (eu disse TRINTA TURMAS). São trinta diários de classe para manter atualizados. Supondo uma média de 35 alunos por sala serão 1050 alunos. Esse professor dispõe de apenas dez horas para planejar, estudar, formular e corrigir exercícios e provas. Diga; que qualidade de ensino esse infeliz poderá oferecer? Pensemos agora no seu salário; um professor em início de carreira recebe por volta de 1200 reais, incluídas todas as gratificações. Isso é salário digno para alguém que estudou toda uma vida, tem curso superior e leva trabalho pra casa? Você pode dizer; “Bem foi ele que escolheu ser professor”. Claro que você tem razão, feliz daquele que pode escolher seu trabalho, mas isso seria justificativa para esse obsceno salário? É justo uma pessoa que tem curso superior de educação, que tem a responsabilidade de ensinar seu filho, de ser muitas vezes aquele que substitui você nas atribuições que deveriam ser suas ser assim tão desvalorizado e tratado como escória da sociedade? Que inversão de valores quando aqueles que foram eleitos por você para defender seus interesses e seu bem estar estão roubando seus impostos em benefício de seus próprios interesses e jogando a nação em um mar de lama e vergonha enchendo seus cofres com salários propostos e aumentado por eles próprios.
Pessoalmente não dependo deste emprego, sou militar aposentado da Força Aérea, escolhi ser professor ao me aposentar como forma de me manter útil à sociedade, trabalhando em seu benefício. Isso porém não significa que tenha que me conformar com a humilhação de ser tratado pelo Estado como sendo escória. Tendo de me submeter a um salário vergonhoso para alguém com a preparação e experiência de vida que tenho a oferecer a meus alunos.
Os professores do Estado de Rondônia decidiram manifestar-se pela greve após muitas tentativas de sensibilizar o governo para terem um aumento salarial digno e razoável. O governo porém vem tratando do caso com total desprezo chegando a dizer que “professores se encontra em qualquer esquina” significando com isso que somos uma categoria profissional sem qualquer valor para o Estado. Que exemplo de incompetência e falta de visão administrativa de alguém que foi eleito para representar o povo e que deveria estar agindo para defender a qualidade de vida da população.
Luís Honório Aquino –
Professor de Língua Inglesa, especializado em Lingüística Aplicada ao Ensino de Língua Portuguesa .






